As zoonoses são doenças ou infecções que podem ser transmitidas naturalmente entre animais vertebrados e seres humanos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 200 enfermidades classificadas como zoonoses. Elas são divididas em dois grupos: as antropozoonoses, que correspondem às doenças dos animais capazes de infectar as pessoas, e as zooantroponoses, que são doenças humanas que podem ser transmitidas aos animais.
As zoonoses representam uma importante questão de saúde pública, tornando essencial a adoção de cuidados regulares com os animais, especialmente os domésticos. Consultas periódicas ao médico-veterinário, a vacinação em dia e a desparasitação são medidas fundamentais para manter a saúde dos pets e reduzir o risco de transmissão de doenças. Além de proteger os animais, esses cuidados ajudam a prevenir a disseminação de zoonoses e contribuem para a segurança e o bem-estar de toda a família.
Segundo Thiago Ramos Pinto, coordenador do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Anhanguera, os patógenos das zoonoses podem ser bacterianos, virais, parasitários ou podem envolver agentes não convencionais, que podem se espalhar para os humanos por meio do contato direto ou por meio de alimentos, água ou meio ambiente.
“As zoonoses compreendem uma grande porcentagem de todas as doenças infecciosas recém-identificadas, bem como muitas das existentes. Algumas doenças, como o HIV, começam como zoonoses, mas depois se transformam em cepas exclusivamente humanas. Outras zoonoses podem causar surtos de doenças recorrentes, como o vírus Ebola e a salmonelose. Outros ainda, como o novo coronavírus que causa a covid-19, têm potencial para causar pandemias globais”, alerta.
Abaixo, o médico-veterinário lista as 8 zoonoses mais comuns em pets e os principais cuidados. Confira!
1. Esporotricose
É uma infecção causada por fungos do gênero Sporothrix, encontrados no solo, plantas, madeira e matéria orgânica em decomposição. É conhecida popularmente como “doença do jardineiro”. A transmissão ocorre quando o fungo entra na pele por pequenos ferimentos, geralmente ao manusear terra, plantas ou espinhos (como rosas), sofrer arranhões ou mordidas de animais infectados (especialmente gatos).
A forma mais comum é a cutânea, que provoca um pequeno nódulo no local da entrada do fungo, que pode evoluir para úlceras e lesões que podem “subir” pelos vasos linfáticos (em cadeia). Em casos mais raros, pode afetar pulmões, ossos ou se disseminar pelo corpo (principalmente em pessoas com imunidade baixa).
O tratamento geralmente é feito com antifúngicos. Em casos graves, pode ser necessário o uso de medicamentos intravenosos. Além disso, costuma ser prolongado (semanas a meses). Para prevenir a esporotricose, é recomendado usar luvas ao lidar com terra e plantas, cuidar de ferimentos na pele e evitar contato com animais suspeitos (principalmente gatos com lesões).
2. Raiva
A raiva é uma doença viral encefalítica fatal se não tratada precocemente. A transmissão ocorre por mordidas ou arranhões de animais infectados e saliva em contato com mucosas ou feridas.
Para prevenir a raiva, recomenda-se a vacinação anual conforme protocolos locais, bem como evitar contato com animais silvestres. Além disso, é essencial buscar atendimento médico imediatamente após mordida. O tratamento profilático humano é feito com vacina e soro, conforme indicação médica.
3. Leptospirose
A leptospirose é uma infecção bacteriana que pode causar febre, insuficiência renal e hepática. A transmissão ocorre por meio de urina contaminada de animais, como ratos e cães, bem como por meio do contato direto ou água/solo contaminados.
A prevenção é feita por meio da vacinação de cães nas áreas endêmicas, conforme recomendação veterinária. Além disso, recomenda-se evitar exposição a águas estagnadas e lixo, higienizar as mãos ao manusear animais doentes e material potencialmente contaminado. O controle de roedores no ambiente domiciliar também é fundamental para prevenir a doença.
4. Toxoplasmose
A toxoplasmose é uma infecção causada pelo protozoário intracelular Toxoplasma gondii. Geralmente é subclínica em pessoas saudáveis, mas perigosa em gestantes e imunossuprimidos. A transmissão acontece por meio da ingestão de oocistos (fezes de gatos) ou carne malcozida contaminada.
A prevenção é feita por meio da higiene ao limpar a caixa de areia, pois os oocistos se tornam infectantes após 1-5 dias. Gestantes e imunossuprimidos devem evitar manipular a caixa de areia. Além disso, é recomendado utilizar luvas e lavar as mãos após manusear a caixa de areia. Outra medida importante é cozinhar bem carnes e lavar frutas e verduras. Por fim, manter gatos exclusivamente domésticos e alimentados com ração/comida cozida.

5. Sarna (sarcoptes e outras ectoparasitoses)
A sarna é uma doença de pele causada por ácaros que provoca coceira intensa, vermelhidão e irritação nos animais. Algumas formas da doença, como a sarna sarcóptica, podem ser transmitidas temporariamente aos seres humanos, causando lesões cutâneas. A transmissão acontece por meio do contato direto com animais infestados ou objetos contaminados.
Diagnóstico e tratamento veterinário rápido para os pets são medidas essenciais. Além disso, é importante realizar a higienização de camas, cobertores e locais de descanso. É fundamental usar produtos acaricidas recomendados e evitar tratamento caseiro sem orientação. Em humanos, recomenda-se procurar um médico em caso de erupções cutâneas persistentes.
6. Toxocaríase (larva migrans visceral/cutânea)
A toxocaríase é uma infecção causada por larvas de Toxocara canis/cati. Pode causar sintomas sistêmicos ou lesões cutâneas/oculares. A transmissão ocorre por meio da ingestão de ovos presentes em solo contaminado (fezes de cães/gatos) ou objetos.
Para a prevenção, é essencial a vermifugação periódica de cães e gatos, seguindo orientação veterinária. Também é crucial a coleta imediata de fezes dos animais em áreas públicas e domésticas. Lavar as mãos com frequência, especialmente crianças que brincam no chão. No caso dos gatos, vale cobrir caixas de areia quando não usadas.
7. Campilobacteriose
A campilobacteriose é uma infecção bacteriana que pode afetar tanto animais quanto seres humanos. Cães e gatos podem ser portadores da bactéria, mesmo sem apresentar sintomas, e, em algumas situações, transmiti-la às pessoas. Nos humanos, a doença costuma provocar diarreia, dor abdominal, febre e mal-estar. A transmissão ocorre por meio do contato fecal-oral e do consumo de água e/ou alimentos contaminados.
Para a prevenção, é fundamental a higiene adequada após manipular fezes ou animais com diarreia. Também deve-se cozinhar e armazenar alimentos corretamente e evitar contato direto com fezes. Além disso, é crucial procurar orientação veterinária para animais com diarreia persistente.
8. Salmonelose
A salmonelose é uma infecção gastrointestinal causada por bactérias do gênero Salmonella. Diversos animais podem ser portadores desses microrganismos, especialmente répteis, aves e roedores, que podem transmiti-los aos seres humanos. A doença costuma causar diarreia, dor abdominal, febre e vômitos. A transmissão ocorre por meio do contato com fezes, ambiente ou alimentos contaminados.
Para reduzir o risco de salmonelose, é fundamental adotar medidas simples de higiene no dia a dia. Lave as mãos com água e sabão por, pelo menos, 20 segundos após o contato com animais, fezes, gaiolas, aquários ou alimentos para pets. Quando isso não for possível, utilize álcool em gel como medida complementar. Também é recomendado evitar oferecer dieta crua aos animais sem orientação veterinária, pois carnes cruas podem aumentar o risco de contaminação por Salmonella.
Além disso, é importante ter atenção especial com répteis, aves e roedores, que são reservatórios frequentes da bactéria. Esses animais devem ser mantidos longe de cozinhas e locais de preparo de alimentos, e o contato direto com crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com o sistema imunológico comprometido deve ser evitado.
Por Deiwerson Damasceno dos Santos