Entenda como a cirurgia de Mohs pode elevar taxa de cura do câncer de pele

O câncer de pele não melanoma é o tipo mais comum entre os brasileiros, com 220.490 novos casos estimados por ano no país, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) — o equivalente a 31,3% de todos os diagnósticos de câncer no Brasil. Apesar da alta incidência, poucos pacientes conhecem uma técnica capaz de elevar significativamente as chances de cura: a cirurgia micrográfica de Mohs.

Na cirurgia convencional, o corte é feito de forma menos precisa e permite analisar, em média, apenas de 2% a 5% das margens do tumor. “Então, 98% não foi analisado. E aí é onde começam os problemas, porque os pacientes começam a ter recidiva do tumor”, explica o dermatologista Carlos Alberto Bruno. Já na técnica micrográfica, o cirurgião retira de 1 a 2 milímetros de margem inicial e amplia apenas o local onde ainda houver células tumorais identificadas na análise feita durante a própria cirurgia.

Essa diferença se reflete diretamente na taxa de cura. Segundo o dermatologista, a cirurgia micrográfica de Mohs chega a 99% de cura, enquanto a cirurgia convencional, quando feita com margem de segurança adequada, apresenta índices entre 85% e 90%. “O que acontece é que, às vezes, por causa da área, o profissional dá uma margem menor e na biópsia vai vir lá que está margem livre, porque só analisou 2%”, diz.

Além da maior segurança oncológica, a técnica permite remover apenas o tecido saudável estritamente necessário, uma vantagem especialmente relevante em áreas com pouco espaço de manobra, como nariz, pálpebras, lábios, orelhas e couro cabeludo.

Por que a técnica ainda é pouco acessível?

Apesar dos benefícios, o Brasil conta hoje com poucos profissionais habilitados a realizar a técnica em todo o país. Um dos motivos é a formação exigente: o profissional precisa ser credenciado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia e alcançar um determinado número de procedimentos feitos sob a supervisão de outro profissional até dominar todas as etapas do processo, que incluem remover o tumor, analisá-lo no microscópio durante a cirurgia e reconstruir o defeito cirúrgico. Tudo feito pelo próprio dermatologista, sem a participação rotineira de outras especialidades.

Essa escassez de profissionais, somada ao alto custo da técnica, ajuda a explicar por que ela ainda é pouco difundida no país. “Usa-se muito mais material cirúrgico do que em uma cirurgia convencional. E precisa de um aparelho que chama criostato, que faz o congelamento”, explica o dermatologista, que leva o próprio equipamento até o hospital quando vai operar em Sinop (MT).

O tempo também pesa: uma cirurgia que levaria cerca de 40 minutos pela técnica convencional pode se estender por cerca de 4 a 6 horas na versão micrográfica, por causa do processo de análise das margens durante o próprio procedimento. “Isso evita que o paciente tenha que ser operado de novo no futuro, quando o resultado da biópsia vier comprometido”, pontua.

Médica de jaleco branco sentada em um consultório mostrando a tela de um tablet com gráficos e informações médicas para um homem vestindo camiseta rosa e óculos.
A cirurgia de Mohs é indicada para casos específicos de câncer de pele e pode ser especialmente útil em áreas delicadas (Imagem: SeventyFour | Shutterstock)

Quando a cirurgia de Mohs é indicada

A cirurgia micrográfica de Mohs é indicada principalmente para carcinomas basocelulares e espinocelulares, que são os tipos mais comuns de câncer de pele, além de alguns casos raros e casos selecionados de melanoma.

As áreas com maior indicação são a chamada zona H da face (olhos, nariz e testa), couro cabeludo, orelhas, região genital e extremidades como pernas e mãos, por serem regiões com pouco tecido disponível ao redor do tumor. Tumores que já haviam sido tratados antes e voltaram a aparecer no mesmo local também são indicação da técnica.

Por ser um procedimento mais longo e detalhado, a capacidade de atendimento também é menor: um cirurgião consegue operar, em média, dois pacientes por dia pela técnica micrográfica, contra cinco a sete pela cirurgia convencional, o que ajuda a explicar por que o acesso ao método ainda é limitado, inclusive dentro da rede pública.

Para quem acaba de receber um diagnóstico de câncer de pele, a mensagem do dermatologista é de esperança. “O paciente pode ser curado pela melhor técnica que existe na atualidade, e já no momento da cirurgia temos a certeza da cura, com o menor defeito cirúrgico possível”, afirma Carlos Alberto Bruno.

Por EnzoTres

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