Baunilha na perfumaria: entenda por que a nota mais clássica voltou a ser tendência

Por décadas associada ao etil maltol, um composto aromático sintético com cheiro semelhante ao algodão-doce, responsável por reforçar perfumes gourmand intensos e açucarados, a baunilha passa por um processo de compreensão e reinvenção na perfumaria contemporânea. Considerada uma das matérias-primas mais nobres e emblemáticas da história das fragrâncias, ela retorna em destaque em composições mais complexas, elegantes e multifacetadas.

Se antes evocava sobremesas e perfumes adolescentes populares nos anos 1990 e 2000, hoje a vanilla ressurge em interpretações mais sofisticadas e complexas, que vão das versões licorosas, amadeiradas, defumadas, salgadas e transparentes ao novo gourmand. A mudança acompanha a evolução do comportamento do consumidor, que busca fragrâncias capazes de transmitir conforto emocional, personalidade e refinamento olfativo.

A baunilha deixa de cumprir apenas o papel de conforto imediato e é reinterpretada como construção artística, uma obra olfativa que revela nuances, textura e identidade própria em cada fragrância. De acordo com a especialista em perfumaria Alessandra Tucci, fundadora da Paralela Escola Olfativa, referência no estudo da perfumaria e associada exclusiva da escola francesa Cinquième Sens, essa transformação reflete uma mudança mais ampla: “O perfume deixou de ser um acessório de sedução e passou a atuar como experiência sensorial e expressão pessoal.”

A era dos comfort scents

A ascensão dos chamados comfort scents impulsiona o retorno da baunilha. Notas cremosas e envolventes criam sensação de acolhimento e proximidade, favorecendo perfumes versáteis para o dia a dia. Nessa leitura, a baunilha aparece equilibrada por almíscar, flores leves e madeiras cremosas como sândalo, resultando em fragrâncias envolventes e elegantes.

Sugestões de produtos: Club Black Eau de Parfum, de Mercedes-Benz.

Influência oriental

Na perfumaria árabe contemporânea, a baunilha ganha profundidade ao ser combinada com âmbar, especiarias, madeiras e resinas. O resultado são perfumes mais densos e marcantes, distantes da ideia juvenil tradicionalmente associada ao ingrediente. “Essa interpretação evidencia o uso da baunilha de forma mais sensual e complexa, pensada para criar presença e longa duração na pele”, explica Alessandra Tucci. A leitura reforça a longevidade das fragrâncias e dialoga com consumidores que buscam impacto olfativo e performance prolongada.

Sugestões de produtos: Ghala, de Al Wataniah; Lychee Musk, de Arabiyat; Sahr al Kalimat, de Sahari.

Fotografia em close-up de flores de orquídea de baunilha com pétalas brancas e miolo amarelado, repousando sobre uma superfície de madeira rústica e escura. Entre as flores, destacam-se várias favas de baunilha secas e marrons. A imagem utiliza uma profundidade de campo reduzida, mantendo o foco nítido na flor principal enquanto o fundo permanece suavemente desfocado, evocando uma sensação de pureza e aroma natural.
Na perfumaria de nicho, a baunilha ganha narrativa e identidade artística (Imagem: Valentyn Volkov | Shutterstock)

A baunilha como arte olfativa

Outra vertente da tendência está na perfumaria de nicho, que transforma a vanilla em narrativa olfativa. Mais do que uma nota balsâmica, o ingrediente passa a carregar origem, técnica e identidade artística. Segundo a especialista, essa abordagem reflete a busca crescente por perfumes autorais e conceituais.

“Na perfumaria de nicho, ela deixa de ser apenas uma nota confortável e passa a contar uma história. Um exemplo éVanilla Tanà, lançamento da casa italiana Gritti, que utiliza favas de baunilha maceradas no interior de troncos ocos de antigos baobás. Esse processo adiciona nuances amadeiradas e terrosas à fragrância, criando uma interpretação texturizada da matéria-prima.”

Novas facetas

Além das leituras confortáveis, orientais e autorais, há as interpretações mais experimentais, refletindo o desejo contemporâneo por perfumes sensoriais e menos previsíveis. Nas versões balsâmicas e amadeiradas, a vanilla surge menos adocicada e mais estrutural, combinada a madeiras, couro suave, vetiver e incenso, resultando em fragrâncias elegantes e alinhadas ao movimento do luxo discreto e à estética genderless. A defumada explora contrastes mais profundos ao lado de resinas, tabaco e acordes tostados, revelando um caráter quente e sofisticado.

Já a leitura salgada ou mineral combina acordes marinhos, âmbar cinza e almíscares limpos, criando perfumes que remetem ao cheiro natural da pele e reforçam a tendência dos skin scents. Por último, a baunilha transparente aparece em composições leves e luminosas, equilibradas por flores delicadas e musks suaves, em uma abordagem especialmente relevante em mercados de clima quente, como o brasileiro.

Sugestões de produtos: Animale Seduction Femme, de Animale.

O retorno do gourmand

A redescoberta da vanilla também acompanha o renascimento do gourmand, mas sob uma nova perspectiva. Em vez das fragrâncias excessivamente doces que marcaram os anos 1990 e 2000, a perfumaria atual aposta no chamado neo-gourmand. Nessa abordagem, ela aparece combinada a notas tostadas, lactônicas, amendoadas, café, cacau ou pistache, criando perfumes que evocam memória afetiva e prazer sensorial sem perder sofisticação.

O gourmand deixa de ser associado exclusivamente ao público jovem e passa a representar conforto emocional, autenticidade e expressão individual, elementos centrais no comportamento do consumidor contemporâneo.

Sugestões de produtos: Vanilla Addiction, de Gulf Orchid; Royal Marina Red Diamond, de Marina de Bourbon.

Por Caroline Amorim

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