Estilo de vida pesa mais que genética no risco de câncer

Conforme pesquisa do Observatório de Oncologia, o câncer foi a principal causa de morte entre 2015 e 2023 em 670 cidades brasileiras. Os pesquisadores do estudo, inclusive, indicam que a doença pode se tornar a principal razão de fatalidade no país até 2029.

O oncologista clínico Marcos Rezende explica que o estilo de vida tem peso maior que a herança genética na maioria dos casos de câncer. Segundo ele, embora exista uma preocupação comum com o histórico familiar, os hábitos cotidianos exercem influência mais significativa no desenvolvimento da doença.

“Em dados, observamos com frequência que o estilo de vida impacta muito mais. Temos uma porcentagem muito maior de câncer relacionado aos hábitos da pessoa. Os casos hereditários ficam na faixa de 5% a 10%”, diz.

Hábitos que aumentam o risco de câncer

Ao detalhar os principais fatores modificáveis, o médico Marcos Rezende destaca comportamentos que aumentam o risco e que, em muitos casos, podem ser evitados. A combinação de sedentarismo, alimentação inadequada e consumo de substâncias nocivas forma um cenário propício ao surgimento de tumores. “Sedentarismo, dieta inflamatória com excesso de gordura, açúcar e fritura, e o uso de tabaco e álcool são os principais pontos. Quem mantém esses hábitos deve acender um alerta”, ressalta.

A importância de avaliar os fatores de risco

O especialista alerta que a percepção de risco equivocada é perigosa, pois a ausência da doença no histórico familiar não garante proteção genética. Essa crença, inclusive, pode levar as pessoas a negligenciarem os cuidados com a saúde. “É perigoso quando a pessoa acredita que está protegida por não ter histórico familiar. O estilo de vida é muito mais impactante no desenvolvimento da doença em muitos casos”, alerta.

Apesar disso, ele observa que o acesso à informação tem ampliado a busca por prevenção. Pessoas com casos na família, mesmo sem diagnóstico, tendem a procurar exames e acompanhamento médico com maior frequência. “Hoje as pessoas são mais informadas e acabam sendo mais moderadas em vários aspectos. Há muitos casos de indivíduos que procuram exames de rotina por prevenção”, afirma.

Tipos de câncer e suas origens

O oncologista também esclarece quais tipos de câncer têm maior associação genética. Isso porque, a depender do tumor, o avanço da doença pode estar relacionado a mutações. Ele observa que as síndromes hereditárias exigem atenção específica, especialmente quando há repetição de casos na família. “Câncer de mama e ovário podem estar ligados a mutações como BRCA1 e BRCA2. Já o câncer colorretal pode estar associado à síndrome de Lynch. Quando há padrão familiar, é importante investigar”, destaca.

Segundo Marcos Rezende, diversos tipos de câncer estão relacionados diretamente ao estilo de vida. Dessa forma, a exposição a fatores evitáveis amplia significativamente o risco de desenvolvimento da doença. “O câncer de pulmão está muito ligado ao tabagismo. O de colo do útero tem relação com o HPV. Já o de fígado pode estar associado ao álcool, obesidade e hepatites. O colorretal também tem ligação com dieta pobre em fibras e sedentarismo”, observa.

Homem sentado com médico segurando um aparelho de exame de colonoscopia na sua frente
Identificar padrões familiares é essencial para avaliar o risco hereditário e agir de forma preventiva (Imagem: Halfpoint | Shutterstock)

Quando investigar fatores genéticos

O especialista reforça que a identificação de risco hereditário depende dos padrões familiares e da idade em que os casos surgem. Esses critérios seriam os responsáveis por definir se há necessidade de uma investigação aprofundada. “Deve-se observar se há vários casos na família e a idade em que apareceram. Quanto mais jovem o diagnóstico, maior a chance de haver componente hereditário”, lembra.

Mesmo quando há predisposição genética, Marcos Rezende ressalta que o risco pode ser controlado. A adoção de medidas preventivas e o acompanhamento médico permitem reduzir impactos e detectar precocemente possíveis alterações.

“Se a síndrome genética está confirmada, o risco é alto, mas pode ser administrado com exames de rotina. Quando não há síndrome, mesmo com histórico familiar, muitas vezes é possível controlar apenas com mudanças de hábitos”, afirma.

Estilo de vida como aliado no tratamento

Marcos Rezende destaca que a conduta do paciente durante o tratamento pode influenciar diretamente o quadro clínico. A adoção de hábitos saudáveis, então, seria uma das estratégias mais eficientes para a regressão da doença. “Em pacientes com câncer de mama, há dados que mostram redução de até 40% na chance de recidiva quando mantêm um estilo de vida saudável. Isso impacta tanto na qualidade de vida quanto no resultado do tratamento”, conta.

Por fim, o oncologista resume as principais estratégias de prevenção. A combinação de atividade física, alimentação equilibrada e ausência de tabagismo forma a base para reduzir o risco da doença. “Praticar atividade física regularmente, manter uma dieta rica em vegetais e não fumar são pilares essenciais. Além disso, é importante limitar o álcool e manter a vacinação em dia para doenças como HPV e hepatites”, conclui o médico.

Por Enzo Tres

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