Com a reta final de 2026 se aproximando, o período também abre uma oportunidade para os pequenos negócios olharem para a própria organização financeira e começarem a planejar o próximo ano. Afinal, é natural que, em algum momento da sua trajetória, uma empresa precise lidar com uma queda inesperada nas vendas, um cliente que atrasou um pagamento ou uma despesa que não estava nos planos. Imprevistos acontecem. A forma como o negócio consegue responder a eles, no entanto, também depende de como sua gestão financeira está estruturada e, entre os pequenos negócios brasileiros, essa estrutura ainda é bastante simples em muitos casos.
Nesse sentido, ainda há espaço para avançar. Segundo pesquisa realizada pela Cora, instituição financeira feita para quem empreende, em parceria com a Hibou, 37% dos empreendedores ainda usam anotações manuais, como cadernos e folhas de papel, para controlar as finanças do negócio. A proporção é ainda maior entre os microempreendedores individuais (MEIs), chegando a 45%.
“Não que usar anotações manuais signifique, necessariamente, ter uma gestão financeira ruim. A questão é que dispor de uma estrutura que facilite o acompanhamento das informações ajuda o empreendedor a entender melhor o cenário e tomar decisões com mais segurança quando surge um imprevisto”, explica Igor Senra, empreendedor e CEO da Cora. “Contar com informações organizadas e algum nível de planejamento financeiro é fundamental para olhar a situação de forma mais ampla”, completa o especialista.
Como os pequenos negócios reagem aos imprevistos
Tal visão de maior alcance, no entanto, nem sempre parece orientar a reação dos pequenos negócios diante de um aperto financeiro, de acordo com o levantamento da Cora. Isso porque as três medidas mais adotadas em situações de imprevisto têm em comum a busca por um efeito mais imediato sobre o caixa: 37% dos empreendedores cortam custos, 34% fazem promoções para gerar mais recursos e 25% recorrem ao próprio dinheiro ou ao apoio financeiro de familiares e sócios.
Outras respostas seguem a mesma lógica. Quase um quarto (24%) recorre ao cheque especial ou limite de crédito, enquanto 22% adiam ou renegociam pagamentos. Além disso, 11% afirmam não ter um plano definido para esses momentos e resolver a situação conforme ela aparece.
Quando comparamos os resultados por porte, as principais reações aos imprevistos não mudam tanto, mas aparece uma diferença importante na capacidade de recorrer a recursos previamente reservados. Entre micro e pequenas empresas, 32% afirmam utilizar a reserva de caixa do negócio nesses momentos, ante 24% dos MEIs — uma diferença de oito pontos percentuais.
O dado acompanha outras diferenças na forma como esses dois grupos organizam a gestão financeira. Entre micro e pequenas empresas, 39% utilizam softwares de gestão financeira e 35% recorrem a sistemas ERP. Entre os MEIs, os percentuais caem para 27% e 17%, respectivamente. Já as anotações manuais fazem o caminho inverso: são utilizadas por 45% dos MEIs, ante 26% das micro e pequenas empresas.

Passos para organizar as finanças antes de 2027
Para aproveitar a reta final do ano como um momento de organização, alguns passos simples podem ajudar o empreendedor a entrar em 2027 com mais previsibilidade:
- Organizar entradas e saídas: concentrar as informações financeiras em um único lugar e manter o acompanhamento atualizado;
- Projetar os próximos meses: mapear receitas esperadas, despesas fixas, impostos e outros compromissos já previstos;
- Revisar custos antes do aperto: identificar gastos que podem ser renegociados ou ajustados sem esperar uma emergência;
- Começar ou reforçar uma reserva de caixa: separar, sempre que possível, uma parcela dos recursos para situações inesperadas;
- Antecipar alternativas: avaliar previamente quais medidas poderiam ser adotadas em caso de queda de receita, atraso de pagamentos ou aumento de despesas.
“À medida que o negócio cresce, é natural que a gestão financeira também ganhe novas camadas de organização. Mas essa estrutura não precisa começar apenas quando a empresa fica maior. Mesmo para quem está começando, ter informações organizadas, acompanhar o caixa e se preparar para imprevistos ajuda a ampliar as possibilidades de resposta quando alguma coisa sai do planejado”, afirma Igor Senra.
“A reta final do ano pode ser justamente um bom momento para fazer essa revisão e entrar em 2027 com mais clareza sobre o negócio. O objetivo não é eliminar os imprevistos, porque isso não está sob o controle do empreendedor, mas estar mais preparado para lidar com eles sem precisar tomar todas as decisões sob a pressão da urgência”, finaliza o especialista.
Sobre a pesquisa
“A vida financeira de quem toca um negócio no país” é uma pesquisa quantitativa realizada pela Cora, em parceria com a Hibou, em abril de 2026 para entender os desafios, hábitos e percepções de empreendedores brasileiros em relação à gestão financeira de seus negócios. O levantamento contou com 1.300 respostas completas de empreendedores de todo o país, incluindo MEIs, microempresas, pequenas empresas e empresas de médio porte. A margem de erro é de 2,7 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Por Gabi Cardoso